quinta-feira, 14 de maio de 2009

«Embora a paisagem urbana, com um grande número de desabrigados e seus abrigos improvisados e originais, fosse associada por muito tempo às cidades do Terceiro Mundo, na segunda metade do século passado algumas dessas cidades de papel e de plástico começaram a aparecer nas grandes metrópoles mundiais, expondo ao público o número enorme de miseráveis e desabrigados em todo o mundo.
Olhando seus abrigos informais, podemos ver como eles se adaptaram à vida nas ruas de cada cidade, mostrando que existem várias possibilidades e estratégia para resolver o problema do abrigo.
A cultura dos desabrigados é diferente em cada uma das cidades, com seus próprios componentes políticos, sociais e culturais. Em cada uma, os materiais utilizados para erguer seus abrigos revelam sua criatividade e, ao mesmo tempo, a ingenuidade em cada um dos projetos
espontâneos. Seu comportamento adaptável indica que não são somente vítimas, mas também agentes ativos que podem criar e construir seus abrigos temporários utilizando e reciclando tudo e qualquer material disponível.
Essas cidades de papel e plástico são construídas do lixo que nossa cultura industrial e tecnológica produz no nosso dia-a-dia. Enfrentar a experiência de mergulhar vertiginosamente nas sombras e construir abrigos frágeis, movidos pela necessidade, fez com que os desabrigados
transformassem o conceito e a dinâmica das cidades.
Dentro das cidades de papel e de plástico é possível observar uma série das práticas relacionadas à cultura e à presença dos moradores de rua. Dentre elas, gostaria de mencionar o estabelecimento de culturas do desemprego, que levaram ao nomadismo, à bricolagem como formas de resistir à exclusão e criação de estratégias para sobreviver. Outro aspecto a ressaltar refere-se ao estabelecimento de uma justaposição da cidade formal com a cidade de plástico e de papelão, que freqüentemente incorpora elementos do ambiente construído, como marquises, espaços residuais, baixios de viaduto, etc.
A pesquisa procurou identificar e descrever os principais materiais e produtos reutilizados pelos moradores de rua na produção de seus habitats informais. Dentre outras, constatou a presença extraordinária de todos os tipos de embalagens, com as quais os moradores de rua criam uma variedade de soluções para exercer as funções da vida doméstica no espaço público.
Os dados dessa investigação resultaram de pesquisa de campo realizada nas três cidades estudadas - São Paulo, Los Angeles e Tóquio - onde pude observar sistematicamente e identificar os procedimentos e os materiais empregados pelos moradores de rua na construção de seus habitats.
As cidades de papel e de plástico constituem uma herança dramáticado século XX, e uma das grandes questões com as quais hoje se deparamos arquitetos, urbanistas, políticos e a sociedade civil em geral. Nesse contexto, qual seria a possível contribuição da arquitetura? Do urbanismo e do design?»

Maria Cecilia Loschiavo

[O artigo pode ser lido aqui na íntegra.]

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